terça-feira, junho 13, 2006

Ajuda Divina

Hoje perdi um braço. Dito assim até parece fácil. Mas relaxem, senhores, que tal coisa não acontece da noite para o dia.
Foi na loja. Pouca gente, calmaria, e as cebolas para meter na saca. Sentia-me desconfortável, porém. Algo estava a mais. Instantaneamente, como se o fizesse de todas as vezes que ia aquela loja, procedi a remoção do membro superior esquerdo. Lembro-me de pensar que o melhor seria não o pousar. Ainda o deixo por aqui esquecido. Nem mais. Exactamente estas palavras em tom de aviso a cocegarem-me o cérebro.
Chega a menina, sempre prestável, sempre simpática, e lança-me um Estou a ver que está atrapalhado. Precisa de uma mãozinha? Esperta, e com ar de ter passado a escolinha toda com distinção, aproveitou a deixa (e a lança) , e vem-se-me com um daqueles sorrisos de menina-disponível-para-ajudar-...EMTUDO'QUEFORPRECISO.
Sendo eu um menino acanhado, corei. Por dentro mas corei. E recusei ambas as ajudas, a explícita e a implícita. Não por não precisar. Mas por boa educação. O meu pai sempre me disse para não dar trabalho as pessoas.
Fui para a caixa, paguei o que tinha a pagar e sem mais demoras pus-me ao fresco que estava quase a rolar a bola. Não sem antes molhar o bico no Ti Zé Carrula, mestre em adivinhações e premonições, em especial jogos da boila. Às vezes é irritante. Chega mesmo a sê-lo a quase sempre mas custa-me estragar-lhe o negócio. Desta vez não se pôs com bitaites sobre a França e o Zidane ou sobre a Suiça e os queijos. Não. Desta vez olhou-me e calou-se. Ele, o papagaio que nunca perde o pio, o entendido sobre tudo e sobre todos, o patrão que tem sempre de falar primeiro que o cliente. Animou-me vê-lo assim, calado.Deu-me vontade de lhe perguntar se estava doente, se o gato lhe tinha comido a língua, se...Interrompeu-me o pensamento e muito friamente, sem nunca perder o ar de fanfarrão, pergunta-me Que raio se passou consigo que ainda há 2 horas saiu com as peças todas e aparece-me agora sem braço?
Ai o braço caralho!!!


p.s.: não tivesse Deus a dormir quando a menina da loja foi feita, e certamente teria dado por falta do braço

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